Sermão sobre a correção e a educação dos filhos

Por Rev. Pe. Javier Olivera Ravasi

Tradução, notas e grifos de Airton Vieira

 

[12 de jun. 2018 (Extraído do Evangelho de S. Lucas, XV, 1-10)]

 

No Evangelho que recém acabamos de ouvir, Nosso Senhor conta uma parábola, como sempre, como todas as parábolas, com exagerações. Todas as parábolas de Nosso Senhor são hipérboles, são exagerações. Na realidade, nunca um pastor deixa 99 ovelhas para simplesmente ir buscar uma, porque não é negócio. Nunca uma pessoa revira toda a casa até que encontre uma moeda de cinco centavos, e depois faz festa e se alegra. Isso é uma hipérbole, por isso mesmo Nosso Senhor quando fala, tanto aos fariseus como aos discípulos, exagera, para que, dando-lhes o mais, ao menos alguém fique com o mínimo, o elementar.

E nesta parábola se fala das moedas e das ovelhas, aquelas que alguém pode chegar a perder. Eu gostaria de aplicar este texto hiperbólico, parabólico, de Nosso Senhor, a estas moedas, ou a estas ovelhas que todo pai e toda mãe podem chegar a ter em sua própria casa, que são os próprios filhos. Ainda que esse Evangelho se pudesse aplicar com muitíssimos outros sentidos (ao pecador que se arrepende e torna à casa paterna…), penso que seria bom aplicá-lo a isto. Peço que ninguém se sinta ofendido, mas como diz um dito espanhol: al que le quepa el sayo que se lo ponga[1]. E é por isso que o sacerdote tem de pregar sobre estes temas, porque uma primeira questão que alguém poderia colocar-se é: “O que tem a ver um Padre pregar sobre a educação dos filhos?”. O mesmo poderia dizer alguém a respeito de um médico oncologista: “O que tem a ver este médico oncologista falando de câncer se nunca teve câncer?”. A Igreja é Mater et Magistra, é Mãe e Mestre, por isso tem experiência nestes temas. E a vida dos santos e a doutrina do cristianismo durante dois mil anos lhe dá um pouco de experiência independentemente ou não de que o pregador seja um educador.

O primeiro princípio que quero salientar é que um pai ou uma mãe se salva ou se condena segundo a educação que dá a seus filhos. Às vezes se escuta dizer por aí “Padre, Padre – aconteceu comigo mais de uma vez – que posso fazer? Meu filho já tem 25, 30 anos, se desviou do caminho… a verdade é que já não sei o que fazer, já não sei… não sei o que posso fazer…” “Nada. [Desculpe] senhor, estou perdendo tempo. Há que ser realista. O senhor lhe deu uma educação sólida quando era pequeno, ou o mandou a um colégio “católico” entre aspas? Então, neste instante não há mais nada a fazer. Simples. Porque se perdeu há tempos. Há um tempo para tudo, diz o livro dos Provérbios[2]. E o tempo especial [destinado] aos filhos é justamente quando ainda os têm em casa. Depois já não há mais tempo, por dura que seja a resposta (…). “Dá-me os primeiros oito anos de vida das crianças, que lhe dou [de presente] o resto”, disse S. Agostinho. É isto.

Os pais se salvam ou se condenam segundo a educação que dão a seus filhos, ainda que se tenha presente a obrigação dos pais de alimentá-los; isso, inclusive em relação aos maus pais. E Nosso Senhor também o disse: “Quem de vós, se um filho pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou se pedir um peixe, lhe dará uma serpente?”. Bom, eu lhes digo que há muitos pais que a seus filhos lhes dão pedras, e serpentes. Quem sabe, com a melhor das intenções… ou quem sabe com um pouco de ignorância. Porque, queiramos ou não, todos aqui somos filhos da modernidade. Não é esta uma obrigação a mais do pai ou da mãe: é a obrigação. Os pais são depositários e não donos das vidas de seus filhos. Daí que S. João Crisóstomo o diga: “Olhemos aos filhos como um depósito precioso, e velemos por eles com toda a solicitude possível”. E como são não donos, mas depositários da vida, sobretudo da vida da alma, de seus filhos, vão ter de dar conta desse depósito que receberam: “Que fizeste com esse único filho que te dei? Que fizeste com esses dez filhos que te dei? Que fizeste?!”. Uma das perguntas que me fará o Senhor no dia do juízo é esta.

Quais são as consequências de uma boa e de uma má educação? Há muito já se perguntavam os gregos. Com os meninos mais velhos, este ano, estamos lendo um diálogo de Platão chamado Menon, [em que se pergunta] se a virtude pode ou não se educar, pode ou não se transmitir aos outros. E a educação, claramente, não é um remédio que alguém nos dê. Alguém dispõe os meios – que o diga a comunidade maçônica: somos livres, certo? –, contudo, se não ponho essa armadura, se não disponho os meios, dificilmente então posso lograr que no dia de amanhã surja na família um herói, um santo ou um mártir. Diz a Escritura no livro do Deuteronômio, que os filhos serão o que forem os pais. Isso qualquer de vocês poderá comprovar: vejam como são as crianças, e saberão como são os pais. Simples. O filho é o reflexo de seus pais. Porque pelo fruto se conhece a árvore.

Este problema da educação vem da época dos primeiros cristãos. Um dos Padres da Igreja recém citado, São João Crisóstomo, dizia que já em sua época, século IV, os pais se ocupavam mais dos cavalos e das bestas de carga que de seus próprios filhos. Que belo costume tinham os espartanos, que quando uma criança ou um jovem delinquia, cometia um delito, castigava-se principalmente o pai, porque de algum modo era responsável pelo delito de seu filho.

E por que dizemos que é importante pregar estes temas? Porque se não são pregados, considerando-os como óbvios, acaba-se por esquecê-los. E como são esquecidos, acaba-se por não se praticar. E como… somos filhos do tempo presente, puderam nos meter [na mente] – puderam nos meter porque somos filhos deste ambiente – a ideologia nefasta da psicopedagogia moderna de que há de deixar a criança ser [o que é]. Já Rousseau dizia, em seu célebre livro Emílio, que as crianças nascem boas, porém a sociedade as corrompe. Vemos todos os dias nos noticiários: “Pobrezinho desta criança que roubou, matou… Mas há que entender o contexto, não? Ela nasceu no morro, tinha um pai que a maltratava, uma mãe que era uma alcoólatra, uma prostituta… bom, como então não irá terminar numa prisão, se todo o tempo esteve no morro?” Rousseau puro. Nascemos com uma má levedura, nascemos por um pecado que é o pecado original, e se eu o apago pelo batismo fica em mim a tendência, a forma pecatti, a cicatriz, e é por isso que os pais têm de tentar ajudar a que essa cicatriz seja sanada o mais rápido possível.

“Não! Tem de deixar que seja [o que é]… Como vou levantar a mão para uma criança?”… Até isto que pareceria uma coisa elementar, agora tenho de alegar com a Escritura: Provérbios XIII [24]: “O que despreza a vara odeia a seu filho, mas o que o ama o disciplina com diligência”. Sigo: “A necedade está ligada ao coração da criança – a criança é caprichosa por natureza! – mas a vara da disciplina a afastará dela” [XX, 15]; “A vara da disciplina e as palavras da repreensão dão sabedoria, mas o jovem abandonado à sua própria sorte envergonhará sua mãe.” [XXIX, 15]. Bom, para aqueles que [porventura] possam dizer que as palavras do Antigo Testamento são duras demais, citemos o texto de São Paulo aos Hebreus, capítulo 12 [6ss]: “Quem ama ao Senhor, o Senhor o corrige, e açoita a todos os filhos que acolhe. Estais sendo provados para a vossa correção: é Deus que vos trata como filhos. Ora, qual é o filho a quem seu pai não corrige? Mas se permanecêsseis sem a correção que é comum a todos, seríeis bastardos e não filhos legítimos.” Filhos bastardos! Claro, não se está falando aqui de se converter um pai em um espancador; eu sou a favor de que os animais não se extingam, desta forma não há que bater demais nas crianças, mas às vezes alguém pode chegar ao ponto de dizer, quase como um louco… uma criança que insulta sua mãe, e sua mãe não lhe dá uma pequena bofetada, ou algo mais, está lhe causando um dano. Provavelmente – me desculpem que esteja dizendo estas coisas – há que voltar novamente quase como às origens…

Qual é o modo de educar os filhos? A Igreja nos tem ensinado sempre, em distintos documentos. Em primeiro lugar, formar a Cristo nas almas: “O princípio da sabedoria é o temor do Senhor” [Prov. IX, 10]. Falar-lhes do Céu, não ter medo de falar-lhes, inclusive, das penas do inferno. Claro, não é necessário gastar todo o tempo em uma educação castradora, mas aqueles que simplesmente dizem não a todo tipo de conversa sobre o castigo, o inferno – ou o que seja – terminam finalmente esquecendo-se de que se trata de uma realidade eterna. Ademais, Deus mesmo subscreveu em inumeráveis passagens da Escritura: “Desde sua infância, diz o pai Tobias a Tobit, lhe ensinei a temer a Deus e afastar-se de todo pecado” [Tob I, 9s]. Perguntaram a Santa Terezinha do Menino Jesus pelos pecados mortais que havia cometido. Ela, tocando em sua fronte, disse: “não tenho consciência de haver cometido um só pecado mortal em minha vida”. Seus pais, hoje canonizados, viviam no santo temor de Deus, e [tinham] horror por um pecado. A rainha Branca de Castela, mulher santa, mãe de São Luís rei, chegou a dizer-lhe: “Filho, te quero muito, mas antes preferiria ver-te morto a que cometesses um só pecado mortal”.

Como um pai, como uma mãe, tenta educar um filho para o Céu? Usando, armando, colocando essa armadura. E principalmente vigiando as ocasiões de pecado. Vou me fazer entender, vou dar-lhes um exemplo concreto: um pai tem que vigiar as amizades de seus filhos, os ambientes que frequenta. Não é suficiente dizer que o mandou jogar rugby, um esporte cavalheiresco, de homens [viris] etc., se depois, no que chamam de “terceiro tempo”, terminar sendo um desastre tudo isso; terá que pensar bem para onde o manda; porque logo terminam embebedando-se ou buscando más companhias, tendo más conversas, [por isso] acaba não tendo nenhum sentido, por mais heroico que seja esse esporte. Vigiar como fala, a roupa que usa, a música que escuta, as coisas que vê. Todos [nós], os maiores, passamos por esse período da adolescência. Período dificilíssimo, porque mudamos: hoje queremos uma coisa, amanhã queremos outra, e a grande tentação da adolescência para um homem ou para uma mulher, que por si mesmos são distintos por seu modo de ser, são os namoricos, as tentações contra a pureza, nos homens as imagens, na mulher a vaidade…

Se um pai ou uma mãe jogou a toalha, e diz: “Estou cansado, tenho 200 filhos, basta, tenho um montão de trabalho, não posso mais…”, estamos fritos. Porque não é que um pai ou uma mãe estejam fazendo essas coisas para causar dano à criança, ao contrário, [se trata de] um período em minha vida que tenho de esforçar-me ao máximo. E se tiver de perder uns trocados a mais ou uns trocados a menos… mas, [afinal] são meus filhos! Me salvo ou me condeno dependendo disso! E isso ocorre nos melhores ambientes, estou cansado de ver famílias boníssimas, boníssimas… passa o tempo… gente excelente, super comprometida, apostólica… vejam, façam um exame de consciência: [por]que de famílias excelentes, pode ser que depois os filhos lhes saiam mal… O que passou? Está certo, [é] a liberdade Padre… Sim, estamos de acordo, contudo muitas vezes encontramos famílias excelentes cujos filhos não as seguem. Aqui ocorreu algo. Aqui se rompeu o elo. Aqui não houve total dedicação. É verdade que pode haver mais de uma ovelha negra, normal, mas eu lhes posso nomear rapidamente várias famílias conhecidas que tinham uma boa família, gente de bem, [e que] não souberam transmitir a fé aos filhos, e a prática católica comprometida aos filhos: proibir que façam injustiças, que critiquem em público, ou inclusive em casa…

Isto [que] irei repetir me é tremendamente incômodo dizê-lo, porque repito mais de uma vez: não se pode deixar que nossos filhos namorem até que ao menos terminem o ensino médio. Porque são períodos claríssimos de perda de tempo, de perda de pureza, de queimar etapas.

A segunda coisa incômoda: o álcool. Alguém me dirá: “Bem, de fato… eu… para que vá se acostumando… e tome um pouquinho… até em casa com os pais, e tudo…”; lamentavelmente estão iniciando nisto um menino adolescente, que ainda não tem a mesotes, a medida para dizer se é bom, se é mal, o quanto… É como aqueles que dizem “Bom, há que iniciá-los em uma educação sexual completa, depois o garoto vai saber como se virar.”… Porque estou fomentando um vício a este jovem. Goste ou não goste, rapazes das melhores famílias… Bem, quem sabe… “Não, não, eu não faço nada com minha namorada”… sei lá o quê…; [mas] começou a beber aos 13 ou 14 anos… e com seus pais. Eu conheço mais de um caso. Chega aos 18 e, claro: “Um copo de cerveja não é nada, eu me aguento”. É um tema delicado? Sim, mas minha prudência exige que assim o fale; porque eu confesso. Ademais, há pais que por mais que gostem de seus filhos, não os corrigem nunca. Santo Alfonso diz que se um pai visse um de seus filhos cair em um poço e não soubesse nadar, e a única parte do corpo pela qual pudesse agarrá-lo fosse seus cabelos, que pai não os agarraria pelos cabelos e os tiraria [para] fora? Que pai? que bom pai? Há pais que preferem às vezes, por não corrigir, verem seus filhos simplesmente afogados. Porque o que não castiga a seu filho, não corrige a seu filho, diz o livro dos Provérbios, o odeia… o odeia!

Termino. Claro, não se pode dar um sermão a uma classe de pedagogia cristã. É verdade. É impossível. Não é nem o lugar, nem o momento. É verdade. De todo modo, não [há de se] esquecer que os pais são os pastores de seus próprios filhos. E se alguma dessas ovelhas, por meu cansaço, ou porque se foi por aí em quebradas obscuras, está como que se descarrilhando, e eu estou um pouco fatigado… tenho de saber que esse cansaço não pode me vencer, que não basta educar bem o primeiro ou o segundo filho, porque os últimos, claro, me encontrarão caindo pelas tabelas…

Me salvo ou me condeno de acordo com o que fiz nesse período com a educação de meus filhos. E justamente por isso não se pode deixar sós essas ovelhas. “O que tenha ouvido para ouvir, que ouça”. E ao que lhe sirva a carapuça, que a ponha.

Ave Maria Puríssima!


NOTAS

[1] O equivalente ao nosso: se a carapuça serviu…

[2] Se refere, em verdade, a Eclesiastes III, 1-8.


Fonte: http://www.quenotelacuenten.org/2018/06/12/correccion-y-educacion-de-los-hijos-sermon/

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