Conciliábulo feito por Lúcifer no inferno após a morte de Cristo- Irmã Maria Jesus de Ágreda

Texto extraírdo da obra de Irmã Ágreda por San Miguel Arcángel, traduzido por Frei Zaqueu

 

Nota: com este texto confio, por obediência, minhas traduções e mesmo a colaboração com os blogs católicos que ofertaram sua aquiescência ao meu trabalho, à pessoa de meu conhecimento e confiança. Ora em diante, o professor Airton Vieira assume o que a mim foi confiado por Deus nesse pequeno período e que, com gratidão, o devolvo às Suas mãos. O estilo literário, bem como o fio condutor, o posso dizer, é o de “gêmeos siameses”. Daí que meus leitores lendo-o, poderão ler-me. E louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo e sua mãe Maria Santíssima pelos talentos confiados. Que tudo, por fim, seja feito à Sua maior glória, ao nosso bem e de toda a Santa Igreja. Que assim seja!

 Frei Zaqueu


Aos meus leitores: Posso-lhes assegurar que esta leitura ou nunca a fizeram, ou muito poucos, e se não a fazem agora é muito possível que jamais a façam. Pois bem, em suas mãos deixo estas linhas, e não exagero no que vou dizer: pode que o destino eterno de suas almas esteja em que leiam esta publicação. Esclareço que não é uma leitura para almas frívolas, mas para almas que de verdade buscam a perfeição. As frívolas nada entenderão nem saberão degustar a beleza, que acompanha a toda verdade, e sempre causa o bem nas almas. NICKY PÍO.


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A caída de Lúcifer com seus demônios do monte Calvário ao profundo do inferno, foi mais turbulenta e furiosa que quando foi lançado do céu. E ainda que sempre aquele lugar é terra tenebrosa e coberta das sombras da morte, de caliginosa (tenebrosa) confusão, de misérias, tormentos e desordem, como diz o santo Jó: mas nesta ocasião foi maior sua infelicidade e turbação; porque os condenados receberam novo horror e pena acidental com a ferocidade e encontros com que baixaram os demônios, e o despeito que os raivosos manifestavam. Certo é que não têm poder no inferno para pôr as almas à sua vontade em lugares de maior ou menor tormento; porque isto o dispensa o poder da divina justiça, segundo os deméritos de cada um dos condenados, e que com esta medida sejam atormentados. Mas, além da pena essencial, dispõe o justo Juiz que possam sucessivamente padecer outras penas acidentais em algumas ocasiões; porque seus pecados deixaram no mundo raízes e muitos danos para outros que por sua causa se condenam, e o novo efeito de seus pecados não retratados lhes causa estas penas. Atormentaram os demônios a Judas com novas penas, por ter vendido e procurado a morte a Cristo. E conheceram então que aquele lugar de tão formidáveis penas, onde lhe haviam posto, era destinado para castigo dos que se condenassem com fé e sem obras, e os que desprezassem intencionalmente o culto desta virtude e o fruto da redenção humana. E contra estes manifestam os demônios maior indignação, como a conceberam contra Jesus e Maria.

Logo que Lúcifer teve permissão para isto e para levantar-se do aterramento em que esteve algum tempo, procurou intimar aos demônios sua nova soberba contra o Senhor. Para isto os convocou a todos, e posto em lugar eminente lhes falou, e disse: A vós, que por tantos séculos seguistes e seguireis minha justa parcialidade em vingança de meus agravos, é notório o que agora tenho recebido deste novo Homem e Deus, e como por espaço de trinta e três anos me enganou, ocultando-me o ser divino que tinha, e encobrindo as operações de sua alma, e alcançando de nós o triunfo que obteve com a mesma morte que para destruí-lo lhe procuramos. Antes que tomasse carne humana lhe aborreci, e não me sujeitei a reconhecê-lo por mais digno que eu e de que todos lhe adorassem como superior. E ainda mais que por esta resistência fui derrubado do céu convosco, e convertido na fealdade que tenho, indigna de minha grandeza e formosura; mas mais que tudo isto me atormenta encontrar-me tão vencido e oprimido deste Homem e de sua Mãe. Desde o dia que foi criado o primeiro homem os tenho buscado com desvelo para destruí-los; e se não a eles, a todos seus feitos, e que nenhum lhe admitisse por seu Deus nem lhe seguisse, e que suas obras não resultassem em benefício dos homens. Estes têm sido meus desejos, estes meus cuidados e esforços; mas em vão, pois me venceu com sua humildade e pobreza, me quebrantou com sua paciência, e ainda me derrubou do império que tinha no mundo com sua paixão e afrontosa morte. Isto me atormenta de tal maneira, que se a ele lhe derrubasse da destra de seu Pai, onde já estará triunfante, e a todos seus redimidos os trouxesse a estes infernos, ainda não ficasse meu ódio satisfeito, nem se aplacasse meu furor.

É possível que a natureza humana, tão inferior à minha, aconteça de ser tão levantada sobre todas as criaturas![1] Que há de ser tão amada e favorecida de seu Criador que a juntasse a si mesmo na pessoa do Verbo eterno! Que antes de executar-se esta obra me fizesse guerra, e depois me quebrantasse com tanta confusão minha! Sempre a teve por inimiga cruel; sempre me foi aborrecível e intolerável. Oh homens tão favorecidos e presenteados do Deus que eu aborreço, e amados de sua ardente caridade! Como impedirei vossa dita? Como os farei infelizes qual eu sou, pois não posso aniquilar o mesmo ser que recebestes? Que faremos agora, oh vassalos meus? Como restauraremos nosso império? Como cobraremos forças contra o homem? Como poderemos já vencê-lo? Porque se de hoje em diante não são os mortais insensíveis ingratíssimos, se não são piores que nós contra este Homem e Deus que com tanto amor os redimiu, claro está que todos lhe seguirão a porfia; todos lhe darão o coração e abraçarão sua suave lei; nenhum admitirá nossos enganos; aborrecerão as honras que falsamente lhes oferecemos, e amarão o desprezo; quererão a mortificação de sua carne, e conhecerão o perigo dos deleites; deixarão os tesouros e riquezas, e amarão a pobreza que tanto honrou seu Mestre; e a tudo quanto nós pretendamos excitar seus apetites, lhes será aborrecível por imitar seu verdadeiro Redentor. Com isto se destrói nosso reino, pois ninguém virá conosco a este lugar de confusão e tormentos; e todos alcançarão a felicidade que nós perdemos; todos se humilharão até o pó, e padecerão com paciência, e não se logrará minha indignação e soberba.

Oh infeliz de mim, e que tormento me causa meu próprio engano! Se lhe tentei no deserto serviu para dar-lhe ocasião a que com aquela vitória desse exemplo aos homens, e que no mundo lhe fosse tão eficaz para vencer-me. Se lhe persegui, ocasionou o ensino de sua humildade e paciência. Se persuadi a Judas que lhe vendesse, e aos judeus que com mortal ódio lhe atormentassem e pusessem na cruz, com estas diligências solicitei minha ruína, e o remédio dos homens, e que no mundo ficasse aquela doutrina que eu pretendi extinguir. Como se pode humilhar tanto o que era Deus? Como sofreu tanto dos homens, sendo tão maus? Como eu mesmo ajudei tanto para que a redenção humana fosse tão copiosa e admirável? Oh que força tão divina a deste Homem, que assim me atormenta e debilita! Aquela minha inimiga, sua Mãe, como é tão invencível e poderosa contra mim? Nova é em pura criatura tal potência, e sem dúvida a participa do Verbo eterno, a quem vestiu de carne. Sempre me fez grande guerra o Todo-poderoso por meio desta Mulher tão aborrecível à minha altivez, desde que a conheci em seu sinal ou ideia. Mas se não se aplaca minha soberba indignação, não me dispo de fazer perpétua guerra a este Redentor, a sua Mãe e aos homens. Eia, demônios de meu séquito, agora é o tempo de executar a ira contra Deus. Chegai todos a conferir comigo por que meios o faremos, que desejo nisto o vosso parecer.

A esta formidável proposta de Lúcifer responderam alguns demônios dos mais superiores, animando-o com diversos arbítrios que fabricaram para impedir o fruto da redenção nos homens. Concordaram todos em que não era possível ofender à pessoa de Cristo, nem minguar o valor imenso de seus merecimentos, nem destruir a eficácia dos Sacramentos, nem falsificar nem revogar a doutrina que Cristo havia pregado; mas que não obstante tudo isto convinha que, conforme às novas causas, meios e favores que Deus havia ordenado para o remédio dos homens, se inventassem ali novos modos de impedi-los, pervertendo-os com maiores tentações e falácias. Para isto alguns demônios de maior astúcia e malícia, disseram: Verdade é que os homens têm já nova doutrina e lei muito poderosa, têm novos e eficazes Sacramentos, novo exemplar e Mestre das virtudes, e poderosa intercessora e advogada nesta nova Mulher; mas as inclinações e paixões de sua carne e natureza sempre são as mesmas, e as coisas deleitáveis e sensíveis não se têm mudado. Por este meio, acrescentando nova astúcia, desfaremos, enquanto é de nossa parte, o que este Deus e Homem tem obrado por eles; e lhes faremos poderosa guerra procurando atraí-los com sugestões, irritando suas paixões, para que com grande ímpeto as sigam, sem atender a outra coisa; e a condição humana, tão tímida, embaraçada em um objeto, não pode atender ao contrário.

Com este arbítrio começaram de novo a repartir tarefas entre os demônios, para que com nova astúcia se encarregassem como por quadrilhas de diferentes vícios em que tentar aos homens. Determinaram que se procurasse conservar no mundo a idolatria, para que os homens não chegassem ao conhecimento do verdadeiro Deus nem da redenção humana. Se esta idolatria faltava, arbitraram que se inventassem novas seitas e heresias no mundo; e que para tudo isto buscassem os homens mais perversos e de inclinações depravadas que primeiro as admitissem, e fossem Mestres e cabeças dos erros. E ali foram fraguadas no peito daquelas venenosas serpentes a seita de Maomé, as heresias de Ário, de Pelágio, de Nestório, e quantas se têm conhecido no mundo, desde a primitiva Igreja até agora, e outras que têm maquinadas, que nem é necessário nem conveniente referi-las. Este infernal arbítrio aprovou Lúcifer, porque se opunha à divina verdade, e destruía o fundamento da saúde humana, que consiste na fé divina. Aos demônios, que o promoveram e se encarregaram de buscar homens ímpios para introduzir estes erros, os louvou e acariciou, e os pôs a seu lado.

Outros demônios tomaram por sua conta perverter as inclinações das crianças, observando as de sua geração e nascimento. Outros de fazer negligentes seus pais na educação e doutrina dos filhos, ou pôr demasiado amor, ou aborrecimento, e que os filhos aborrecessem seus pais. Outros se ofereceram a pôr ódio entre os maridos e mulheres, e facilitar-lhes os adultérios, e desprezar a justiça e fidelidade que se devem. Todos concordaram em que semeariam entre os homens rancores, ódios, discórdias e vinganças, e para isto os moveriam com sugestões falsas, com inclinações soberbas e sensuais, com avareza e desejo de honras e dignidades, e lhes proporiam razões aparentes contra todas as virtudes que Cristo havia ensinado; e sobretudo divertiriam os mortais da memória de sua paixão e morte, e do remédio da redenção, das penas do inferno e de sua eternidade. E por estes meios lhes pareceu a todos os demônios que os homens ocupariam suas potências e cuidados nas coisas deleitáveis e sensuais, e não lhes restaria atenção nem consideração às espirituais, nem às de sua própria salvação.

Ouviu Lúcifer estes e outros arbítrios dos demônios, e respondendo disse: com vossos pareceres fico muito obrigado, todos os admito e aprovo, e tudo será fácil de alcançar com os que não professarem a lei que este Redentor deu aos homens. Mas nos que a admitam e abracem, dificultosa empresa será. Mais nela e contra estes pretendo estreitar minha sanha e furor, e perseguir acerbissimamente aos que ouvirem a doutrina deste Redentor e lhe seguirem; e contra eles há de ser nossa guerra sangrenta até o fim do mundo. Nesta nova Igreja hei de procurar sobremaneira semear minha cizânia, as ambições, a cobiça, a sensualidade e os mortais ódios, com todos os vícios de que sou cabeça. Porque se uma vez se multiplicam e crescem os pecados entre os fiéis, com estas injúrias e sua pesada ingratidão irritarão a Deus para que lhes negue com justiça os auxílios da graça que lhes deixa seu Redentor tão merecidos; e se com seus pecados se privam deste caminho de seu remédio, segura teremos a Vitória contra eles. Também é necessário que trabalhemos em tirar-lhes a piedade, e tudo o que é espiritual e divino; que não entendam a virtude dos Sacramentos, ou que os recebam em pecado, e quando não o possuam, que seja sem fervor nem devoção; pois como estes benefícios são espirituais, é mister admiti-los com afeto de vontade, para que tenha mais fruto quem os usar. E se uma vez chegarem a desprezar a medicina, tarde recuperarão a saúde, e resistirão menos a nossas tentações; não conhecerão nossos enganos, esquecerão os benefícios, não estimarão a memória de seu próprio Redentor, nem a intercessão de sua Mãe; e esta feíssima ingratidão os fará indignos da graça, irritando seu Deus e Salvador que a negará. Nisto quero que todos me ajudeis com grande esforço, não perdendo tempo nem ocasião de executar o que os mando.

Não é possível referir os arbítrios que maquinou o dragão com seus aliados nesta ocasião contra a santa Igreja e seus filhos, para que estas águas do Jordão entrassem em sua boca. Basta dizer que lhes durou esta conferência quase um ano inteiro depois da morte de Cristo, e considerar o estado que teve o mundo e o que tem depois de haver crucificado a Cristo nosso bem e mestre, e haver manifestado sua Majestade a verdade de sua fé com tantas luzes de milagres, benefícios e exemplos de homens santos. E se tudo isto não basta para manter os mortais no caminho da salvação, bem se deixa entender quanto tem podido Lúcifer com eles, e que sua ira é tão grande, que podemos dizer com São João: Ai da terra, que baixa a vós Satanás cheio de indignação e furor! Mas ai dor!, que verdades tão infalíveis como estas e tão importantes para conhecer nosso perigo, escusando-as com todas nossas forças, estando assim tão apagadas da memória dos mortais com tão irreparáveis danos do mundo! O inimigo astuto, cruel e vigilante; nós dormidos, descuidados e fracos! Que maravilha é que Lúcifer se tenha apoderado tanto do mundo, se muitos lhe ouvem, lhe admitem e seguem seus enganos, e poucos lhe resistem, porque se esquecem da eterna morte que com inculpável indignação e malícia lhes procura? Peço eu aos que isto leiam, não queiram esquecer tão formidável perigo. E se não lhe conhecem pelo estado do mundo e suas desditas, e pelos danos que cada um experimenta em si mesmo, conheça-o ao menos pela medicina e remédios tantos e tão poderosos, que deixou na Igreja nosso Salvador e Mestre, pois não aplicaria tão abundante antídoto se nossa dolência e perigo de morrer eternamente não fosse tão grande e formidável.

“MÍSTICA CIDADE DE DEUS”

 Ano 1888


(NdT) * Irmã María de Jesús de Ágreda – Mística

Nasce: 2 de abril, 1602 em Ágreda (Soria)

Morre: 24 de maio de 1665 no mesmo lugar.

Nome de batismo: María Coronel y Arana

Filha de uma nobre família, Francisco Coronel y Catalina Arana.

Foi religiosa com extraordinários dons místicos.

Padecia “mortes místicas” pelas que permanecia imóvel durante horas imóvel e insensível. Seguidamente experimentava êxtases e levitação. Dizem que também tinha o dom de bilocação.

Estes fenômenos a fizeram suspeita ante o Santo Ofício (Inquisição) mas saiu absolvida. Isso fomentou ainda mais sua fama e até o rei Felipe IV quis conhecê-la.

O Papa Clemente X, em 1765, a declarou Venerável.


Obras

Sua obra mais importante, A Mística Cidade de Deus, sobre a Vida da Virgem, foi, segundo a Venerável, ditado pela Virgem Maria. A escreveu duas vezes. A primeira foi queimada pela própria autora por causa da imposição de um religioso ancião que era contrário a que as mulheres escrevessem sobre temas teológicos, e a segunda versão foi publicada após sua morte.

 
Outras: Cartas a Felipe IV, Escala ascética, Exercícios cotidianos, Exercícios espirituais e Leis da esposa.

 http://www.corazones.org/santos/maria_de_jesus_agreda.htm


Fonte: http://adelantelafe.com/conciliabulo-lucifer-infierno-tras-la-muerte-cristo-sor-maria-jesus-agreda/

[1] Cf. Sl 8

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Jacinta Marto: uma vida breve, santa e cheia de ensinamentos (III)

Escrito por San Miguel Arcángel

Traduzido por Frei Zaqueu

OS ÚLTIMOS DIAS DE JACINTA E SUA MORTE –– Vamos expor brevemente e em partes a vida e morte de Jacinta Marto. (Tomado do livro “Aparições da Santíssima Virgem em Fátima” pelo Padre Leonardo Ruskovic O.F.M. Ano 1946)

Chegou Jacinta a Lisboa acompanhada de sua mãe; aqui começarão para seu espírito as mais dolorosas provas, e aqui também receberá eterna recompensa das mãos do Eterno Juiz a suas heroicas virtudes.

No hospital onde devia ser internada não encontraram alojamento, por encontrar-se o nosocômio repleto de enfermos. A Providência acudiu em seu auxilio, e por especial exceção foi recebida em um asilo de órfãs chamado Orfanato de Nossa Senhora dos Milagres (rua da Estrela 17).

Neste asilo se encontrava como em sua própria casa; para ela foi “A casa de Nossa Senhora de Fátima”, e à madre superiora, a quem chamava “madrinha” e em quem havia depositado toda confiança, a tinha em alta estima.

A Reverenda Madre Superiora. Irmã Maria Godinho, ao receber Jacinta no Asilo a considerou uma benção especial do céu e logo pode verificar de seu acertado critério, pois Jacinta era verdadeiro modelo de inocência e modéstia e um vivo exemplo de obediência e paciência, não menos que de piedade; virtudes estas que muito contribuíram ao crescimento espiritual daquele estabelecimento. Aconselhava suas companheiras à prática da obediência e a dominar seus caprichos, repudiar as mentiras e sofrer todas as contrariedades por amor de Deus para obter o céu.

Sua alegria por viver junto a Jesus, sob o mesmo teto, lhe proporcionava tal imensa alegria, que esquecia as cruéis doenças que a martirizavam; enquanto se albergou na Casa de Nossa Senhora de Fátima, acompanhava Jesus em sua solidão do sacrário com frequentes visitas eucarísticas e o recebia quase diariamente em seu inocente coração.

A medida que sua doença cobrava maiores progressos, suas dores também se intensificavam mais e mais; a bondosa Mãe dos Aflitos não deixou de sustentá-la e animá-la nas dolorosas provas com frequentes e consoladoras aparições.

Conversava um dia com a Madre Superiora, quem se encontrava junto ao leito da enferma, quando esta lhe disse:

—Madre, retire-se daqui, porque esse lugar virá em seguida ocupá-lo Nossa Senhora…

E enquanto falava assim, tinha os olhos fixos ao lugar onde esperava a visão.

Exporemos aqui algumas das numerosas instruções que a Virgem Santíssima se dignava comunicar a Jacinta, e que ela revelava fielmente a sua “Madrinha”, a Madre Superiora.

“O PECADO QUE LEVA MAIS ALMAS AO INFERNO É O PECADO CARNAL; POR ISSO É NECESSÁRIO DEIXAR O LUXO, NÃO OBSTINAR-SE NO PECADO COMO ATÉ AGORA; É NECESSÁRIO FAZER MUITA PENITÊNCIA.”

Em outra ocasião lhe dizia a Mãe de Deus: “NÃO POSSO TOLERAR UMAS MODAS QUE TANTO OFENDEN A DEUS NOSSO SENHOR. AS PESSOAS QUE SERVEM A DEUS NÃO DEVEM SEGUIR AS MODAS. AS GUERRAS SÃO SINAIS DE CASTIGOS DO MUNDO”.

Jacinta dizia mui aflita à Madre Superiora: —Nossa Senhora já não pode sustentar o braço vingador de seu Amado Filho, que o estende para castigar o mundo. É urgente fazer penitência; se os homens se corrigem, Nosso Senhor salvará o mundo; mas se não se emendarem, virá o castigo”

Também conta Jacinta que enquanto a Virgem lhe dirigia aquelas palavras, mostrava um semblante tão triste e aflito, que sua alma se lhe desgarrava de pura dor; por isso, ao recordar aquela visão, costumava exclamar com profunda tristeza:

— Como me aflige a dor de Nossa Senhora Ah!… Se os homens soubessem o que é a eternidade, o que não fariam para corrigir-se? Ai daqueles que perseguem a religião!… Se o governo deixasse a Igreja livre e desse liberdade à santa religião, seria abençoado.

Dirigindo-se à Superiora lhe dizia:

—Madrinha, reze muito pelos pecadores; reze muito pelos sacerdotes; reze muito pelos religiosos; reze muito pelos governos. Os sacerdotes devem ocupar-se de seu ministério eclesiástico. Os sacerdotes têm que ser castos. A desobediência dos sacerdotes e dos religiosos a seus superiores ofende muito a Deus.

E em tom mais veemente dizia à Superiora:

—Não ame as riquezas. Fuja do luxo. Seja muito amiga da santa pobreza e do silêncio. Tenha muita caridade com os maus. Não fale mal de ninguém e evite o murmurador. Tenha muita paciência, porque a paciência nos leva ao céu. A mortificação e os sacrifícios são muito agradáveis a Deus Nosso Senhor. Com muito prazer me faria religiosa, mas prefiro mais me ir ao céu. Para ser religiosa é urgente ser muito limpa e casta de alma e de corpo.

— E sabes tu— perguntou-lhe a Reverenda Madre superiora—, o que significa ser casta?

—Ser limpa de corpo — respondeu Jacinta— quer dizer guardar a castidade; ser limpa de alma é cuidar-se para não pecar: não olhar coisas desonestas; não roubar nem mentir jamais, mas dizer sempre a verdade, ainda que nos custe um sacrifício.

— Quem te ensinou estas coisas? — lhe perguntou a Superiora.

Ela humildemente respondeu:

—Nossa Senhora me ensinou.

E verdadeiramente, não há que duvidar que tal sabedoria fosse celestial e infusa em uma menina que não tinha recebido senão conhecimentos muito superficiais da doutrina cristã e jamais tivesse ouvido falar de mística perfeição.

Deus, em prêmio de suas virtudes, a tinha adornado do dom de profecia. Três fatos bastarão para evidenciá-lo:

Recebeu um dia a visita de sua mãe. A Madre superiora perguntou a esta se lhe agradaria que suas filhas Florinda e Teresa se fizessem religiosas.

—Deus me livre!  —respondeu ela muito enfática —.

Jacinta não havia ouvido esta conversação. Passados uns dias manifestou confidencialmente à Madre superiora:

—Muito agradaria a Nossa Senhora que minhas irmãs se fizessem religiosas, mas como minha mãe não está conforme, a Virgem se as levará às duas, dentro de muito pouco tempo, ao Paraíso.

Apenas haviam transcorrido vários meses, quando desconsolada chorava a mãe a morte de suas duas filhas.

Tempo fazia que a Reverenda Madre abrigava um desejo de ir a Fátima.

—A senhora irá — lhe disse Jacinta—, mas será depois de minha morte.

E os fatos confirmaram a veracidade destas palavras. Acompanhando os restos mortais de Jacinta a Vila Nova de Ourem cumpriu seu anelo de visitar Fátima.

Havia um sacerdote terminado de pronunciar uma conferência na capela do Asilo; perguntou a Superiora a Jacinta se lhe haviam agradado as palavras do ministro de Deus. Depois de um breve silêncio respondeu:

— Não me agradou.

— Não ouviste como fala bem? —seguiu interrogando-lhe a Superiora.

— Sim, fala, mas… a Nossa Senhora no lhe agrada.

— É tão bom e fala como um anjo! — afirmou outra vez a Superiora.

— Sim fala…, mas ele não é bom sacerdote.

A Religiosa a admoestou docemente, que de ninguém deveria julgar-se mal e menos dos sacerdotes.

Jacinta nada respondeu. Não passou muito tempo, e aquele triste sacerdote apostatou com grave escândalo dos fiéis.

No Asilo recebia a atenção médica de dois distinguidos residentes, quem lhe dispensavam muita delicadeza e cristã caridade. Um destes lhe rogou que intercedesse muito por ele no céu ante o trono da Santíssima Virgem. Jacinta prometeu cumprir seu desejo, e olhando-lhe com ternura, lhe disse:

—O senhor, doutor, irá ao céu.

O outro doutor se encomendou a si mesmo e a sua filha às orações da enferma: esta respondeu: —Também o senhor, doutor, irá ao céu: primeiramente sua filha, e depois, lhe seguirá o senhor.

Todas estas profecias tiveram mais tarde exato cumprimento.

Jacinta foi trasladada do Asilo ao Hospital de D. Estefania. Ali ficou só, isolada, desconhecida de todos. A Reverenda Madre superiora costumava visitá-la, e era então o único momento de consolo, e alívio. Estendida em sua caminha, sofrendo contínuas dores, recordava aos seus e de especial forma a sua prima e companheira Lúcia, e diariamente a encomendava em sus orações. Por causa da distância não podia comunicar-lhe suas confidências; por isso lhe dirigiu a seguinte mensagem: “Nossa Senhora de novo me visitou e me disse que dia morrerei. Tu fica sempre boa’’.

Muito afligia a nossa enferma o ateísmo e incredulidade dos médicos. Ah!. … se os pobres soubessem o que lhes aguarda!, repetia com frequência.

Ofuscado por uma época de tantos progressos modernos e sob o influxo de uma ilimitada liberdade, o governo português, ateu em sua crença, reduzia por todos os meios a moral cristã. Os incrédulos, para lograr mais facilmente suas diabólicas intenções, propagaram e difundiram a indecente moda feminina na segurança de que perdendo a mulher o belo tesouro do pudor ficariam soltas as cordas a todos os vícios e franca difusão a todas as corrupções. E diariamente estamos contemplando que sob o pretexto de modernas exigências sociais, a imoralidade nos vestidos vai triunfando em numerosas consciências cristãs, ofuscadas pelo ambiente ateu e pagão em que vivemos.

Jacinta, ao contemplar às enfermeiras do hospital com exígua modéstia em seus atavios, costumava dirigir-lhes esta advertência: “Para que serve vosso vestido imoral?… Se soubésseis o que é a eternidade, não vos vestiríeis tão indecentemente”. Jacinta não podia apagar de sua memória o tétrico e dantesco quadro do inferno que vira na Cova da Iria, como tampouco as palavras que lhes dirigira a Santíssima Virgem ao abrir-lhes as ígneas portas do averno: “A maioria das almas que se condenam no inferno, se condenam pelo pecado carnal. Por isso é necessário que o mundo se afaste da vida deliciosa e sensual. Não deve insensibilizar-se no pecado mas fazer penitência deles”.

A doença é um duro crisol que purifica às almas, deixando-as expeditas de todos os afetos terrenos. O último período da vida de nossa enferma não era senão uma contínua e amorosa união com Deus. A ideia de estar afastada de seus pais e irmãos já não trazia nostalgia ao seu espírito, pois Deus preenchia todos seus anelos. “A vida é breve — costumava exclamar—, e logo nos encontraremos todos na região da eternidade”

Em 10 de fevereiro de 1920 foi submetida a uma intervenção cirúrgica; por sua extrema debilidade não pode ser cloroformizada. Sofrendo as terríveis dores da operação, não brotou de seus lábios queixa alguma, exceto os naturais e angustiosos suspiros. “Meu Jesus — repetia com frequência em meio de suas dores— seja tudo por teu amor e pela conversão dos pecadores! Aceita este sacrifício pela salvação de muitos deles”.

Três dias antes de sua morte recebeu a visita da Reverenda Madre superiora do Asilo, e então Jacinta lhe manifestou: “De novo me visitou Nossa Senhora e me disse que dentro de pouco viria buscar-me e que não terei mais dores”. E desde aquele momento deixaram de martirizá-la os terríveis sofrimentos e se apagaram de seu rostro os vestígios de dor.

Em 20 de fevereiro, às 16 horas, sentiu apoderar-se de suas forças extrema debilidade e pediu a presença de um sacerdote para que lhe administrasse os últimos auxílios da religião. Depois de receber a absolvição sacramental, expressou ao ministro de Deus seu vivo desejo de receber por viático Jesus-Eucaristia.

O sacerdote prometeu que o traria à manhã seguinte, pois os sintomas, ainda que graves, não acusavam um próximo desenlace. Insistiu em seus desejos a pequena enferma, mas não foi atendida; assim o havia disposto Deus, exigindo dela um último e doloroso sacrifício, que ofereceu resignada pela conversão dos pecadores.

Havia soado por fim para Jacinta a hora de liberar-se desta miserável envoltura humana e voar apressadamente rumo às mansões celestiais. Quando o relojo do tempo assinalava as 23 e 30 horas, começavam para Jacinta as horas infinitas da eternidade. Como se o prometesse, a Rainha dos Céus, rodeada de inúmeros espíritos angélicos, desceu de seu magnífico trono de glória a receber em sua Imaculada Mão a inocente alma de Jacinta Marto. Expirava em suma paz, assistida unicamente pela gentil enfermeira Aurora Gómez, a quem chamara com especial carinho “minha Aurorazinha”.

Havia cumplido heroicamente a admirável e difícil missão que lhe encomendara a Mãe de Deus na Cova da Iria, 34 meses e 18 dias atrás. A ela como aos outros dois videntes, lhes havia pedido a Santíssima, Virgem voluntários sacrifícios praticados por amor a Deus, em reparação das ofensas cometidas diariamente; contra o Imaculado Coração de Maria, pela conversão dos pecadores, pelo Santo Padre, pelas benditas almas do Purgatório, especialmente pelas mais abandonadas. E assistida da graça de Deus, Jacinta, com imensa caridade, generosamente se havia imolado na ara dolorosa do sacrifício; agora podia exclamar com a mesma segurança do Apóstolo: “Combati o bom combate e cheguei ao fim. Agora aguardo a recompensa que me dará o Justo Juiz”.

Cumprindo o expresso desejo da defunta, seu corpo foi amortalhado em alva veste com uma faixa azul que cingia sua cintura. Engalada com esta veste tinha se aproximado um dia para receber pela primeira vez em seu peito ao Cordeiro Imaculado.

A capela de Nossa Senhora dos Anjos guardou transitoriamente seus despojos mortais; Jacinta descansava agora à sombra do Santuário da Santíssima Virgem, a quem ela tanto havia amado e venerado.

Veloz como a aurora correu a notícia do falecimento por todo Portugal, e como obedecendo a um só impulso, desfilaram ante o féretro em interminável caravana homens de toda condição social. Todos anelavam possuir uma relíquia, mas estando proibido cortar algo de sua veste, satisfaziam seus desejos fazendo tocar sobre o venerado corpo quantos objetos tinham a seu alcance, paninhos, medalhas, rosários, etc.

Três dias e meio ficou exposto o corpo defunto à veneração pública e ante um imenso gentio que ia cobrando proporções cada vez mais gigantescas. A expressão angelical da que fosse mártir do amor divino obrava nos corações qual poderoso e secreto imã.

O senhor Antonio Rebelo de Almeida, encarregado de custodiar o venerando corpo, nos descreve assim sua impressão: “Me parecia antes ver ante meus olhos um anjo que um despojo de ser humano. Seu corpo mortal parecia vivo. Seus lábios, assim como todo seu rosto, eram semelhantes às mais belas rosas. O agradável odor que exalavam seus membros não pode explicar-se naturalmente; superava à fragrância das mais perfumadas flores. Muitas pessoas acudiram a venerá-la e todos se retiravam levando em suas almas a impressão de haver contemplado uma santa”.

O notável especialista doutor Enrique Lisboa faz notar particularmente o aromático perfume que exalou constantemente o corpo defunto todo o tempo que permaneceu insepulto, tendo Jacinta falecido de uma pleurisia purulenta.

Em 24 de fevereiro, às 11 horas, era levada processionalmente à estação ferroviária Rosário, desde onde em triunfal apoteose devia seguir até Vila Nova de Ourem e ser depositada no suntuoso mausoléu da família do barão de Alvaiázere.

Esta piedosa conduta do barão em dar tão magnífica pousada aos restos venerandos de Jacinta, evitando assim a profanação dos anticlericais, foi para ele e para toda sua família jalón bendito de inumeráveis graças da parte do Altíssimo. Os membros desta ilustre família se encontravam atacados dos mortíferos micróbios da tuberculose; quatro irmãos do barão haviam caído vítimas desta doença, e desde aquele momento em que Jacinta, podíamos dizer, entrou a formar parte integrante da família, o terrível flagelo abandonou seu domínio, vencido pelo hálito protetor do “Anjo da Guarda”, como costumava chamá-la o piedoso barão de Alvaiázere a Jacinta.

Neste suntuoso mausoléu ficou o corpo de Jacinta até 12 de setembro de 1935, data em que por decreto do bispo diocesano foi trasladado a Fátima, acompanhado de um grandioso cortejo. “Com lágrimas nos olhos — escreve o piedoso barão — vimos retirar do mausoléu a bendita relíquia, por cuja intercessão havíamos conseguido tantas graças celestiais”.

Antes de empreender a triunfal marcha, abriram o féretro na parte da cabeceira e encontraram seu rosto incorrupto, mostrando a plácida expressão do que disfruta de um tranquilo sonho. Fecharam novamente o venerado féretro em presença das autoridades eclesiásticas e civis, e iniciaram a marcha até o novo destino.

Na Cova da Iria, lugar das benditas aparições, se deteve o cortejo, cantaram o ofício de defuntos e celebraram uma Missa.

Chegaram por fim a Fátima, em cujo cemitério, que se encontra junto à mesma Igreja Paroquial, o bispo diocesano, Mons. José Alves Correia da Silva, havia ordenado construir um mausoléu para os dois videntes: Francisco e Jacinta Marto. O mausoléu, em suas linhas arquitetônicas, é de sóbria simplicidade, distinguindo-se entre os demais por sua nítida brancura. Em sua entrada lemos o seguinte epitáfio: “Aqui jazem os restos mortais de Francisco e Jacinta, favorecidos com a augusta presença da Rainha dos Céus”.

Em 20 de fevereiro de 1944, aniversário da morte da inocente pastorinha Jacinta, foi abençoada uma placa comemorativa no Hospital Estefânia, o qual leva o seguinte epitáfio:

“Em 20 de fevereiro de 1920, Às 23:30 horas, faleceu neste Hospital, Jacinta Marto,

Ainda não cumpridos 10 anos de sua vida. É uma dos três videntes, Aos que se apareceu em “Fátima A Bem-aventurada Virgem Maria.”

“FINAL DA PUBLICAÇÃO DE JACINTA”


Fonte: http://adelantelafe.com/jacinta-marto-una-vida-breve-santa-llena-ensenanzas-iii/

Jacinta Marto: uma vida breve, santa e cheia de ensinamentos (II)

Escrito por San Miguel Arcángel

Traduzido por Frei Zaqueu

 

JACINTA NO HOSPITAL –– Vamos expor brevemente e em partes a vida e morte de Jacinta Marto. (Tomado do livro “Aparições da Santíssima Virgem em Fátima” pelo Padre Leonardo Ruskovic O.F.M. Ano 1946)

A enfermidade continuava sua ação destruidora no corpo de Jacinta; seus pais, alarmados, resolveram levá-la ao hospital de Vila Nova de Ourem. Este povoado, como já dissemos ao princípio desta história, é de origem medieval. Muito próximo se encontra C’astel, o último e bem patente vestígio muçulmano.

Vila Nova já é bem conhecida por nossos pastores; ali passaram três dias de duro cárcere, abandonados de todos, até de seus mesmos pais.

Muito penoso parecia aos pais de Jacinta comunicar a sua pequena esta resolução, ignorando eles que a enferma esperava já de antemão, com tranquila resignação, este desejo da vontade Divina; seus pais ficaram admirados vendo com quanta serenidade e calma recebia de seus lábios a triste notícia.

De todos se despediu, especialmente de Lúcia, a quem nesta ocasião lhe referiu tudo o que a Santíssima Virgem lhe havia manifestado quando se lhe apareceu durante sua enfermidade.

—Perguntei a Nossa Senhora — disse Jacinta— se tu também irias a Vila Nova, e me disse que não; isso foi para mim o mais penoso. Me advertiu que minha mãe me acompanharia ao hospital, e ali ficaria só.

Depois de um momento de silêncio, Jacinta acrescentou:

— Ah, se tu fosses comigo!… Me custa separar-me de ti. No hospital estarei sem nenhuma companhia. Quanto sofrerei ali!

Bem conhecia a pequena enferma por que ia ao hospital; assim o manifestou a sua prima quando lhe disse:

—Nossa Senhora quer que vá ao hospital, não para curar-me, mas para sofrer ali por amor de Deus e pela conversão dos pecadores.

E estas proféticas palavras que lhe comunicara a Mãe de Deus cumpriram-se ao pé da  letra.

Quando sua mãe a visitou pela primeira vez, não manifestava outro anelo que o de ver sua prima Lúcia.

Na segunda visita chegou a senhora Olimpia, acompanhada de Lúcia; quando se viram as duas inseparáveis companheiras, se abraçaram ternamente e lembraram os distantes dias de inocente alegria. Os momentos transcorreram velozes e quando se despediram, muito tinham ainda que dizer-se mutuamente. A quantos perguntavam a Lúcia pela saúde de Jacinta, respondia:

—A encontrei como sempre, muito alegre. Seu único desejo é sofrer por amor de Deus, em honra do Imaculado Coração de Maria e pela conversão dos pecadores. Só nisso pensa e disso fala; é seu único e maior anelo.

Depois de dois longos meses de permanência no hospital, Jacinta regressou novamente a sua casa sem a menor mostra de alívio. Ao contrário, se lhe manifestou uma grande ferida ao modo de úlcera e que era necessário curá-la com muita dor da  paciente. Nova penitência que a bondosa e paternal mão de Deus a enviava e ela aceitava com inteira resignação. Não era para ela menos dorosa cruz as contínuas e multiplicadas visitas que afluíam agora mais numerosas, ao saber-se a notícia de sua grave enfermidade; a todas recebia com plácido semblante, oferecendo a Deus seus interiores sofrimentos, pela conversão dos pecadores e em sufrágio das benditas almas do Purgatório. Muito lhe comprazia a visita dos pequeninos; com eles passava doces momentos, ensinando-lhes os rudimentos da doutrina cristã; lhes fazia rezar o santo rosário e lhes aconselhava não ofender a Deus Nosso Senhor para não cair no inferno…, e os pequeninos se encontravam felizes na amável companhia da bondosa paciente.

Nunca olvidava o seu já defunto irmão Francisco.

— Ah, se pudesse vê-lo!… —repetia com frequência.

Sua prima a consolava, dizendo-lhe:

—Já logo o verás; já não te falta muito para ir ao céu; em troca, eu. . .

—Pedirei muito para que logo te dirijas ao céu— dizia Jacinta —; é Nossa Senhora a que deseja que ainda continues vivendo na terra.

Visitou um dia Lúcia o senhor pároco de Olival, quem, como temos dito, se interessava muito pelo profresso espiritual dos pastorzinhos; ao saber que Jacinta se encontrava muito enferma e tão sumamente debilitada que não podia rezar de joelhos suas orações, lhe ordenou que as recitasse em seu mesmo leito de dor. Ao ouvir Jacinta a mensagem, respondeu:

— E Nossa Senhora estará conforme com tal oração?

Lúcia lhe respondeu que era vontade de Deus o cumprimento dos mandatos de seus ministros.

Jacinta manifestava confidencialmente a Lúcia o seguinte:

— Se soubesses quanto gozo todas as vezes que digo a Jesus que lhe amo!; sinto em meu interior como se tivesse fogo.

Muito resignada lhe disse um dia a Lúcia:

—De novo vi à bela Senhora e me disse que me levariam novamente ao hospital, em Lisboa, e que ali sofrerei muito e morrerei sem ver-te… Mas me animou muito a sofrer tudo por amor de Deus e que Ela mesma me levaria ao Paraíso—, e concluiu entre lágrimas:

—Nunca mais te verei; lá não irás visitar-me…

Não haviam passado vários dias deste doloroso colóquio, quando se apresentou em Aljustrel um especialista, o doutor Enrique Lisboa, e diagnosticando a nossa enferma declarou que era necessário levá-la à capital, Lisboa, e ali operá-la, assegurando a seus pais que recobraria a saúde.

Ao pensar Jacinta em sua rápida e para sempre ausência, não podia evitar que furtivas lágrimas assomassem seus olhos. E encontrou-a um dia Lúcia abraçando ternamente uma imagem da Virgem e dizendo:

— Oh, querida Mãe Celestial!… morrerei tão longe de meus pais e de Lúcia?. . .

Quanto mais se acercava a morte, tanto mais se acrescentava nela o desejo veemente de salvar pecadores!

— Que farás no céu? — lhe perguntou Lúcia.

—Amarei muito a Jesus e ao Imaculado Coração de Maria. Rezarei pelos pecadores e pelo Santo Padre.

E terminou rogando a sua prima que não revelasse a ninguém tudo quanto a Santíssima Virgem lhe havia manifestado.

Chegou o dia fixado para partir rumo a Lisboa. Momentos amargos e dolorosos foram para nossa enferma aqueles em que dirigia o último adeus aos seres queridos, de quem agora a distância a afastava e a morte mais tarde se encarregaria de selar com seu gélido hálito esta separação. Difícil é à palavra interpretar fielmente os sentimentos que unem a duas almas que vibraram e latiram uníssonas sob o impulso de um mesmo e santo ideal. Que poderemos dizer dos últimos instantes que transcorreram para Jacinta e Lúcia?… Deixemos respeitosos correr as lágrimas que brotaram de ambos corações, que elas, em sua muda linguagem, nos falarão com mais eloquência.


Fonte: http://adelantelafe.com/jacinta-marto-una-vida-breve-santa-cheia-ensenanzas-ii/?utm_source=dlvr.it&utm_medium=facebook