Liturgia Diária- 31/07/2017

SANTO INÁCIO DE LOIOLA, Confessor

Festa de 3ª Classe- Missa Própria

Inácio nasceu em Loyola na Espanha, no ano de 1491, e pertenceu a uma nobre e numerosa família religiosa (era o mais novo de doze irmãos), ao ponto de receber com 14 anos a tonsura, mas preferiu a carreira militar e assim como jovem valente entregou-se às ambições e às aventuras das armas e dos amores. Aconteceu que, durante a defesa do castelo de Pamplona, Inácio quebrou uma perna, precisando assim ficar paralisado por um tempo; desse mal Deus tirou o bem da sua conversão, já que depois de ler a vida de Jesus e alguns livros da vida dos santos concluiu: “São Francisco fez isso, pois eu tenho de fazer o mesmo. São Domingos isso, pois eu tenho também de o fazer”.

Realmente ele fez, como os santos o fizeram, e levou muitos a fazerem “tudo para a maior glória de Deus”, pois pendurou sua espada aos pés da imagem de Nossa Senhora de Montserrat, entregou-se à vida eremítica, na qual viveu seus “famosos” exercícios espirituais, e logo depois de estudar Filosofia e Teologia lançou os fundamentos da Companhia de Jesus.

A instituição de Inácio iniciada em 1534 era algo novo e original, além de providencial para os tempos da Contra-Reforma. Ele mesmo esclarece: “O fim desta Companhia não é somente ocupar-se com a graça divina, da salvação e perfeição da alma própria, mas, com a mesma graça, esforçar-se intensamente por ajudar a salvação e perfeição da alma do próximo”.

Com Deus, Santo Inácio de Loyola conseguiu testemunhar sua paixão convertida, pois sua ambição única tornou-se a aventura do salvar almas e o seu amor a Jesus. Foi para o céu com 65 anos e lá intercede para que nós façamos o mesmo agora “com todo o coração, com toda a alma, com toda a vontade”, repetia.

LEITURAS

Epístola (II Tim 2, 8-10; 3, 10-12)

Leitura da Epístola de São Paulo Apóstolo a Timóteo.

Caríssimo: Lembra-te de Jesus Cristo, saído da estirpe de Davi e ressuscitado dos mortos, segundo o meu Evangelho, pelo qual estou sofrendo até as cadeias como um malfeitor. Mas a palavra de Deus, esta não se deixa acorrentar. Pelo que tudo suporto por amor dos escolhidos, para que também eles consigam a salvação em Jesus Cristo, com a glória eterna. Quanto a ti, te aplicaste a seguir-me de perto na minha doutrina, no meu modo de vida, nos meus planos, na minha fé, na minha paciência, na minha caridade, na minha constância, nas minhas perseguições, nas provações que me sobrevieram em Antioquia, em Icônio, em Listra. Que perseguições tive que sofrer! E de todas me livrou o Senhor. Pois todos os que quiserem viver piedosamente, em Jesus Cristo, terão de sofrer a perseguição.

Evangelho (Lc 10, 1-9)

Sequência do Santo Evangelho segundo Lucas.

Naquele tempo, designou o Senhor  setenta e dois outros discípulos e mandou-os, dois a dois, adiante de si, por todas as cidades e lugares para onde ele tinha de ir. Disse-lhes: Grande é a messe, mas poucos são os operários. Rogai ao Senhor da messe que mande operários para a sua messe. Ide; eis que vos envio como cordeiros entre lobos. Não leveis bolsa nem mochila, nem calçado e a ninguém saudeis pelo caminho. Em toda casa em que entrardes, dizei primeiro: Paz a esta casa! Se ali houver algum homem pacífico, repousará sobre ele a vossa paz; mas, se não houver, ela tornará para vós. Permanecei na mesma casa, comei e bebei do que eles tiverem, pois o operário é digno do seu salário. Não andeis de casa em casa. Em qualquer cidade em que entrardes e vos receberem, comei o que se vos servir. Curai os enfermos que nela houver e dizei-lhes: O Reino de Deus está próximo.

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Capítulo IV – “Escândalo para os judeus, Loucura para os pagãos” [A Cruz e o Crucificado]

“Prazerosa quietação da minha vida, sê bem-vinda, cruz querida. (…)

Quem não te ama vive atado, e da liberdade alheio

Quem te abraça sem receio não toma caminho errado.

Oh! ditoso o teu reinado, onde o mal não tem cabida!

Sê bem-vinda, cruz querida”

(Do poema À Cruz – S. Tereza de Jesus)

Após abordar nos capítulos anteriores a Igreja em seu aspecto mais geral, adentremos agora especificamente nos pontos em desacordo entre a doutrina católica e a das seitas protestantes, começando por um sumamente emblemático: o da cruz com o Crucificado. Os protestantes, em sua maioria, defendem que porque “Jesus já desceu da cruz” não há porquê de o representar crucificado. Nós, ao contrário, dizemos que justamente por assim ter escolhido morrer por nossos pecados é que a cruz se torna o troféu do qual se orgulhar. Quem tem a razão? É o que veremos neste capítulo. Note-se, antes, que há templos protestantes como, por exemplo, o de luteranos, metodistas e (sic!) batistas que possuem não só a imagem da cruz, mas com ela o Crucificado.

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Liturgia Diária- 29/07/2017

SANTA MARTA, Virgem

Festa de 3ª Classe- Missa “Dilexisti” com Evangelho próprio.

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As escrituras contam que, em seus poucos momentos de descanso ou lazer, Jesus procurava a casa de amigos em Betânia, local muito agradável há apenas três quilômetros de Jerusalém. Ali moravam Marta, Lázaro e Maria. Há poucas, mas importantíssimas citações de Marta nas sagradas escrituras.

É narrado, por exemplo, o primeiro momento em que Jesus pisou em sua casa. Ali chegando Jesus conversava com eles e Maria estava aos pés do Senhor, ouvindo sua pregação. Marta, trabalhadora e responsável, reclamou da posição da irmã, que nada fazia ouvindo o Mestre. Jesus aproveita então para ensinar que os valores espirituais são mais importantes que os materiais, apoiando Maria em sua ocupação de ouvir e aprender.

Fala-se dela também quando da ressurreição de Lázaro. É ela quem mais fala com Jesus, nesse acontecimento. Marta disse a Jesus: “Senhor, se tivesses estado aqui, o meu irmão não teria morrido. Mas mesmo agora, eu sei que tudo o que pedires a Deus, Deus dará”. (Jo 11,20-22). O milagre de reviver Lázaro solicitado com tamanha simplicidade, por Marta, exemplifica a plena fé na onipotência do Senhor.


SANTOS FÉLIX, SIMPLÍCIO, FAUSTINO E BEATRIZMártires

Comemoração- Missa conforme à de Sta. Marta, com orações próprias

No mesmo dia de Santa Marta prima de Jesus, a Igreja comemora os mártires irmãos romanos Simplício, Faustino e Beatriz, que morreram pela fé de Cristo na perseguição dos imperadores Diocleciano e Maximiano.

Simplicio e Faustino de Roma foram presos. Como eram muito constantes na fé, um vigário do imperador mandou torturá-los e depois degolá-los, sendo seus corpos despejados no rio Tibre. Sua santa irmã Beatriz os recolheu para dar sepultura digna, e depois se escondeu na casa de uma santa viúva chamada Lucina, a qual passava dia e noite em oração, penitência e obras de piedade.

Sete meses durou esta santa companhia; mas o Senhor permitiu que um homem poderoso, chamado Lucrécio, ficasse cego de ambição e desejasse tirar de Santa Beatriz os seus bens de herança, juntando-os ao patrimônio que ele já possuía. Para poder fazê-lo mais facilmente e sem nada gastar de seu bolso, sabendo de sua condição de cristã, fez a ela um convite para sacrificar aos ídolos.

Como Beatriz confessou espontaneamente ser cristã e que de forma alguma adoraria a falsos deuses, Lucrécio a jogou na prisão, e à noite sufocou-a pelo pescoço até morrer. Sua santa amiga Lucina enterrou o corpo dela junto aos de seus irmãos Simplicio e Faustino. Mais tarde o Papa Leão II edificou um magnífico templo emRoma, e para lá trasladou os corpos santos destes mártires.

Para mostrar o tamanho mal que acontece aos que se deixam levar pela cobiça, e que o Senhor descobre e pune as ciladas e artifícios dos homens maus, convém saber como foi o castigo sofrido por Lucrécio.

O ímpio senhor, tão logo se apossou da herança de Beatriz, ofereceu a alguns de seus amigos uma festa para comemorar o delito. Enquanto ele se esbaldasse de alegria e chacota, zombando dos santos mártires e se sentindo dono da fazenda que não lhe pertencia, do nada compareceu ao banquete uma mulher com um bebê lactante aos braços. O bebê, em alto e bom som, disse diante de todos: “Olá, Lucrécio! Mataste, e te apossaste de bem alheio, e caíste em mãos de teu inimigo.”

Imediatamente Lucrécio caiu atordoado, ficou pálido e passou a sangrar; em seguida, ficou possesso do demônio, que lhe atormentou cruelmente durante três horas, para então morrer com grande dano à sua alma e grande proveito de muitos, que com tal fato entenderam que Deus não só reserva o prêmio aos bons e o castigo aos maus, como também tira a máscara dos que mentem e tramam, e mostra que as benesses obtidas por meios ilícitos se transformam em punhal e veneno dos que pecam para conquistá-los.

A Igreja celebra a festa dos Santos Simplício, Faustino e Beatriz no dia de seu martírio, ocorrido em 29 de julho de 302. Fazem menção deste fato todos os Martirológios: o Romano, o de São Beda, o de Usuardo e o de Adon; nas Atas de Santo Antímio Mártir, também se escreve a suma do martírio destes santos irmãos.


LEITURAS

Epístola (II Cor 10, 17-18; 11, 1-2)

Leitura da Epístola de São Paulo Apóstolo aos Coríntios.

Irmãos: quem se gloria, glorie-se no Senhor. Pois merece a aprovação não aquele que se recomenda a si mesmo, mas aquele que o Senhor recomenda.  Oxalá suportásseis um pouco de loucura de minha parte! Oh, sim! Tolerai-me. Eu vos consagro um carinho e amor santo, porque vos desposei com um esposo único e vos apresentei a Cristo como virgem pura.

Evangelho ( Lc 10,38-42)

Sequência do Santo Evangelho segundo Lucas. 

Naquele tempo, estando Jesus em viagem, entrou numa aldeia, onde uma mulher, chamada Marta, o recebeu em sua casa. Tinha ela uma irmã por nome Maria, que se assentou aos pés do Senhor para ouvi-lo falar. Marta, toda preocupada na lida da casa, veio a Jesus e disse: Senhor, não te importas que minha irmã me deixe só a servir? Dize-lhe que me ajude. Respondeu-lhe o Senhor: Marta, Marta, andas muito inquieta e te preocupas com muitas coisas; no entanto, uma só coisa é necessária; Maria escolheu a boa parte, que lhe não será tirada.

 

I- O Matrimônio na história do homem

Por Padre Lucas Prados

Traduzido por Airton Vieira

O matrimônio cristão é aquele sacramento pelo qual duas pessoas de distinto sexo, hábeis para casar-se, se unem em mútuo consentimento em indissolúvel comunidade de vida com o fim de engendrar e educar a prole, e recebem graça para cumprir os deveres especiais de seu estado.

No presente capítulo, dedicado ao sacramento do matrimônio, tentaremos fazer uma exposição clara e resumida de tudo aquilo que um cristão bem formado deveria saber a respeito. Falaremos pois de:

  • O matrimônio na história do homem.
  • O matrimônio civil e o matrimônio como sacramento.
  • Matéria, forma, ministro, sujeito e efeitos do matrimônio.
  • Propriedades do matrimônio.
  • Os fins do matrimônio: primário e secundário.
  • Condições para a validez e licitude do matrimônio.
  • O matrimônio temporário e o matrimônio consumado.
  • Matrimônios mistos e disparidade de culto.
  • Divórcio e nulidade matrimonial.
  • É possível falar de Matrimônio entre pessoas do mesmo sexo?

Como podem ver, o tema é amplíssimo, de forma que tentaremos simplificar ao máximo mantendo em todo tempo a claridade dos conceitos e da exposição.


1.- “O homem … se unirá a sua mulher, e serão os dois uma só carne”

1.1 O mandato de Deus expresso no Gênesis

O matrimônio foi instituído por Deus como último ato criador ao formar Eva de Adão. Uma vez criado o homem disse Deus:

Não é bom que o homem esteja só, vou fazer-lhe uma ajuda semelhante a ele… Apresentou então Deus ao homem todos os gados, as aves do céu, e todos os animais do campo, aos que Adão impôs nome; mas em nenhum encontrou uma ajuda adequada para ele… e Deus fez cair um profundo sono sobre o homem. Retirou uma costela enchendo o vazio com carne, formou uma mulher e a levou ante o homem, que exclamou: Esta sim que é osso de meus ossos e carne de minha carne, será chamada varoa pois do varão há sido tomada. Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe e se unirá a sua mulher e serão uma só carne (Gen 2: 18-24).

O Criador fez o homem e a mulher um para o outro de tal maneira que sua união fosse indissolúvel. Serão uma só carne. Ademais o autor sagrado não se contenta somente com elogiar a união matrimonial, como também recalca a unidade monogâmica frente aos muitos abusos. Deus bendiz ao casal e lhes dá domínio sobre a criação:

“E criou Deus o homem a imagem de Deus; os criou macho e fêmea e os abençoou Deus e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a. Dominai os peixes do mar e as aves do céu e todo animal que anda sobre a terra” (Gen 1: 27-28).

O mandato de crescei e multiplicai se cumprirá inexoravelmente; sendo desde esse momento a procriação, o fim primário do matrimônio (Gen 3:20; 1:28). O pecado original ocasionou a perda do estado de inocência inicial; em adiante, o sofrimento, a concupiscência, as tentações passionais, tratarão de dominar ao homem (Gen 3:16)

1.2 Desde o Pecado Original até o Nascimento de Cristo

Em muitos povos dominou, durante séculos, o costume patriarcal de que os pais determinassem o contraente sem perguntar aos filhos, tendo um papel decisivo os interesses econômicos, dinásticos ou políticos. Por isso, se dava por suposto que a mútua e profunda inclinação entre os sexos conduzia de imediato à simpatia e ao afeto. Não raro se viam os noivos pela primeira vez no dia da boda. Então se dizia: “porque tu és minha esposa, te quero”; hoje, em troca, se diz: “porque te quero, serás tu minha esposa”.

Naturalmente, o contrato matrimonial da época patriarcal somente podia considerar-se moralmente correto quando os contraentes davam seu assentimento à decisão paterna, sem temor e sem coação, e quando podia dar-se por seguro que haveria de despertar-se o amor mútuo. A Igreja tem considerado válidos os Matrimônios celebrados segundo costume em tempo do patriarcalismo, enquanto tem declarado inválidos os Matrimônios celebrados sob coação.

O matrimônio aparece como um convênio ou assunto privado entre as partes interessadas. O noivo (ou o pai do noivo, ou a mãe ou ambos) por um lado, e os pais da esposa (ou o pai, ou a mãe ou ambos) por outro, arranjavam a boda. Deus era a testemunha e o protetor deste acordo (cfr. Tob 8:7; 10:15; Gen 1:28; 2:18; Mal 2:17).

Do forte acento posto no fim primário do matrimônio, a procriação, derivam em Israel a justificação da poligamia (1 Re 11:1 ss.), do levirato (Gen 38:6 ss.), e de outros costumes, enquanto que a falta de filhos era tida por um castigo de Deus e uma maldição (Gen 30:1; 1 Sam 1:6 ss.; Jer 18:21).

Na Antiguidade era frequente ter duas esposas (concubina ou escrava); e assim o Código de Hamurabi autorizava ao esposo de mulher estéril tomar a sua escrava. Algo parecido encontramos nos patriarcas: Sara, ao sentir-se estéril, ofereceu sua escrava Agar a Abraão (Gen 21:14). Jacó tomou por esposas as duas irmãs filhas de Labão: Lia e Raquel (Gen 26:34 ss.; 28:65). Esaú se casa com três mulheres (Gen 26:34; 28:65).

Em tempos de Salomão o interesse político influiu nas bodas e o mesmo monarca contraiu múltiplas núpcias com mulheres estrangeiras para afiançar alianças (1 Re 11:1 ss.). Com alguma antecipação se arranjava a boda com todos seus detalhes, especialmente o preço; mas longe do que se pode pensar, a aquisição da esposa não era um contrato de compra e venda, porque o marido não podia dispor de sua mulher como de um objeto adquirido por compra ou como se fazia com a escrava. O preço era antes uma espécie de compensação pelos danos e prejuízos feitos a sua pessoa ou a seus bens. O matrimônio se contraía já na mocidade, em geral aos 18 anos (Eclo 7:23; 2 Re 8:16 ss.). Uma vez pagado o preço, a esposa passava a ser propriedade sua; era seu possuidor e ela sua pertença (Dt 22:22). Quando entrava a seu novo lar sob o poder conjugal do esposo, a mulher estava casada (Gen 24:65; Ez 16:18). Se celebrava uma festa que costumava durar até sete dias (Tob 11:21; Gen 29:27; Rut 3:9). O fato de passar a mulher ao poder do marido podia simbolicamente expressar-se estendendo a orla do vestido sobre ela.

Essa difusão da poligamia não impede que a monogamia seja vista como ideal matrimonial e a Sagrada Escritura põe exemplos recomendáveis como o de José, filho de Jacó e Raquel (Gen 30:22), que pela inveja de seus irmãos foi vendido como escravo a uns mercadores ismaelitas no deserto e levado ao Egito (Gen 37: 25 ss.). Ali permaneceu fiel à lei do Senhor, e por não querer consentir em adultério com a esposa de seu amo Putifar, mordomo do faraó, mereceu a prisão (Gen 39:7). O Sumo Sacerdote não podia ter mais que uma só esposa.

No Salmo 127:3 a poligamia se dá por desterrada“Tua esposa será como uma vide fecunda no interior de tua casa” e no livro dos Provérbios se recalca a exclusividade do amor matrimonial: “Seja tua fonte bendita, sacia-te na mulher de tua mocidade, cerva amável, graciosa gazela. Tenha ela sua conservação contigo. Seu amor te apaixone para sempre” (5:16 ss.). E de modo ainda mais claro se vê no Cântico dos Cânticos.

É indubitável que a partir do Exílio (s. VI a. C), a monogamia renasce no Povo de Deus. O livro de Tobias é um claro exemplo da alta concepção do matrimônio no povo hebreu:

“Tu fizeste Adão e lhe deste por ajuda e auxílio Eva, sua mulher; deles nasceu todo a linhagem humana, Tu disseste: Não é bom que o homem esteja só; façamos-lhe uma ajuda semelhante a ele. Agora, pois, Senhor, não levado da paixão sexual, mas do amor de tua lei, recebo a esta semelhante a mim por mulher. Tem misericórdia de mim e dela e concede-nos longa vida” (8, 5-8).

O matrimônio por levirato existiu sempre no Oriente e se funda em um princípio de direito hereditário, que estabelece que a viúva deve passar sempre à família do marido. Segundo o Antigo Testamento a viúva de um homem que morria sem filhos devia casar-se com seu cunhado a fim de conseguir descendência para o defunto (cfr. Gen 38:8; Dt 25: 5-10). O costume do matrimônio por levirato existia ainda nos tempos de Jesus Cristo (Mt 22:24).

Nos textos do Gênesis o matrimônio aparece claramente descrito como uno e indissolúvel. A legislação mosaica não instituiu o divórcio, mas o tolerou. O divórcio não é uma lei, mas uma exceção tolerada. Assim o Deuteronômio autoriza ao marido que descobre “algo escandaloso” em sua esposa a escrever uma carta de repúdio, que entrega à mulher, enviando-a a casa de seus pais (Dt 24: 1-5). Segundo a maior parte dos autores, esse texto jurídico não é uma concessão de divórcio, mas antes uma limitação: isto é, opinam que em épocas anteriores, os esposos repudiavam sem mais a suas esposas; o Deuteronômio limita esse direito exigindo que exista uma causa. Ainda que em princípio o divórcio podia dar-se só por iniciativa do marido, posteriormente, em tempos do exílio babilônico, se admitiu também por parte da mulher.

1.3 A restauração do matrimônio original realizada por Jesus Cristo

Há que mencionar em primeiro lugar aqueles textos nos que Cristo restitui o matrimônio a sua primitiva perfeição pondo de relevo que a tolerância do repúdio foi por motivo da dureza do coração do povo judeu e, portanto, alheia ao espírito da lei (cfr. Mt 5:32; 19:4 ss.; Mc 10: 2-12; Lc 16:18).

Recordemos também que Jesus participa em um banquete de bodas como convidado especial e ali realiza seu primeiro milagre (Jo 2:1 ss.) convertendo a água em vinho. A tradição tem visto nesse fato uma consagração por parte de Cristo do valor das núpcias, e portanto uma como proclamação de seu carácter sacramental no cristão.

Com o anúncio evangélico aparece um novo ideal: haverá homens e mulheres que por amor ao Reino dos Céus renunciarão voluntariamente ao Matrimônio (Mt 19:11); são a virgindade cristã e o celibato. Mas isso não supõe um desprezo do matrimônio. Na nova economia, o cristão pode seguir dois caminhos até a Segunda vinda do Filho de Deus: o estado matrimonial e o celibato. Na vida futura o matrimônio será abolido pois “nem os homens tomarão mulheres nem as mulheres tomarão marido, mas que serão como os anjos no céu” (Mt 22:29).

O Novo Testamento elevou o estado matrimonial; já não é somente um pacto ou acordo entre os contraentes, onde o esposo deve pagar um preço; o matrimônio, proclama São Paulo, é um sacramento (Ef 5: 22-23).

São Paulo resolve também as polêmicas suscitadas entre os novos cristãos das comunidades gregas de Corinto. O desconhecimento da doutrina inclinava aos novos fiéis a doutrinas aberrantes: “tudo me é lícito”, diziam uns (1 Cor 6:9 ss.) desconhecendo a santidade do corpo e a ressurreição, legitimando assim a anarquia sexual; “é bom não tocar mulher”, diziam outros, suspendendo a ordem criacional. A doutrina do Apóstolo aclara as questões colocadas: pode e deve contrair Matrimônio aquele a quem Deus dá esse dom, mas de modo absoluto é melhor a virgindade. O que se casa não peca, ainda que para dedicar-se às coisas do Senhor é melhor estar célibe, pois o que se casa tem que estar preocupado pelas coisas do mundo e como agradar a sua mulher; em troca o que se mantém célibe pode dedicar-se com liberdade às coisas do Senhor (cfr. 1 Cor 7: 1-11; 1 Tim 4:3 e 5: 8-15).

Mencionemos finalmente outros textos neotestamentários nos que se faz referência a questões práticas ou aos deveres matrimoniais e familiares: Heb 13:4; Ef 6: 1-9; Col 3: 18-22; 1 Tes 5: 8-15; 6: 1-2; Tit 2: 1-10; 1 Pe 3: 1-7.

2.- Teologia bíblica sobre unidade e indissolubilidade ou matrimônio

Seria equivocada uma apresentação da doutrina bíblica do matrimônio que não tivesse em conta o dinamismo da história da salvação e o aprofundamento progressivo do povo de Israel na verdade revelada.

2.1 Os relatos do Gênesis

Há dois relatos no Gênesis sobre a criação do homem e mulher e sobre a formação do casal humano. O ver seu conteúdo e diferenças é fundamental para a devida compreensão da doutrina e moral do matrimônio.

relato de Gen 2: 18-25 é o mais Antigo dos dois; seu conteúdo fundamental se pode expressar nas seguintes afirmações:

  1. Solidão do primeiro homem“não é bom que o homem esteja só”. A este respeito já sabemos que na Igreja há duas formas de sair dessa solidão: o matrimônio e a virgindade;
  2. Igualdade fundamental de homem e mulher: se refere à igual dignidade pessoal de ambos quanto a sua natureza e destino sobrenatural (Gen 2: 22-23);
  3. Poderoso e misterioso atrativo entre homem e mulher: esta reflexão do Gen 2: 21-24 tem um interesse extraordinário para a doutrina matrimonial, sobretudo na perspectiva de sua unidade e indissolubilidade, tal como as interpreta Cristo mesmo: “não haveis lido que o Criador desde o princípio os fez varão e mulher (no singular) e que lhes disse: por isto o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá a sua mulher e serão os dois uma só carne?”(Mt 19: 4-5);
  4. União total e íntima: se trata, em efeito, de uma união mais íntima e prevalente que a de pais e filhos, uma união de características fundamentalmente distintas, já que se trata de uma união que também é de ordem física, corporal, conjugal; sem descuidar a espiritual, psicológica, cultural, moral, pessoal. Tudo isto e mais está compreendido, ou ao menos sugerido, no termo hebreu dabaq: aglutinar, aderir-se, unir-se intimamente homem e mulher. A expressão bíblica uma carne, expressão clara e misteriosa ao mesmo tempo, parece sugerir em um primeiro plano a união conjugal mediante o ato carnal; mas tem também, como temos dito, um sentido mais pleno e total: desde o físico até o espiritual, e vice-versa. A Bíblia se move na perspectiva integral, humana e salvífica;
  5. Exclusão da poligamia e do divórcio: é a consequência que se desprende obviamente da afirmação anterior, na que o texto bíblico expôs o plano divino primitivo: se são uma mesma carne, estará claro que é ilícito dividir e separar ao homem e sua mulher: “o que Deus uniu, o homem não o separe” dirá Cristo (Mt 19:6). O Concílio Vaticano II afirma que “esta íntima união dos esposos, exige plena fidelidade dos esposos entre si e urge a indissolubilidade do matrimônio”[1].

O pecado original produzirá a princípio uma brecha nesta unidade e indissolubilidade, tal como vemos no capítulo 3 do Gênesis; brecha que acabará em ruptura no seguinte capítulo.

A segunda narração do plano de Deus acerca do homem e da mulher a encontramos em Gen 1: 26-28 e nos apresenta as características da instituição matrimonial estabelecidas por Deus:

  1. homem e mulher são imagem de Deus(1:26);
  2. sexo é bompor ser criação de Deus (1:27);
  3. fecundidade é fruto da benção de Deus(1:28).

Apresentando agora sinteticamente o resultado unitário dos elementos matrimoniais de ambas narrações bíblicas, diremos que o matrimônio segundo o plano de Deus aparece como:

  1. uma comunidade de amor entre homem e mulher(Gen 2);
  2. uma instituição (Gen 1) que provém de Deus, com as leis fundamentais de unidade e indissolubilidade;
  3. orientada para a procriação e educação dos filhos.

2.2 A época dos profetas

A restauração do matrimônio na história da salvação terá na pedagogia divina duas grandes coordenadas: os filhos e o amor; que são os dois valores fundamentais do matrimônio.

Sendo o pecado a corrupção do amor verdadeiro, os profetas quererão pôr remédio a este mal fundamental fazendo uma verdadeira teologia do amor. Eles exaltam e dignificam o amor matrimonial valendo-se do símbolo do amor de Deus a seu povo elegido. Oséias é o primeiro em utilizar este simbolismo (Os 1-3). A literatura profética apresenta indubitavelmente as páginas mais belas, luminosas e profundas do Antigo Testamento, seja pela concepção pura do monoteísmo como pela forma comovedora da descrição do amor de Deus aos homens. No primeiro plano de não poucos textos proféticos (Jer 2:2; 3:1-13; Is 54: 4-8; 62:4 e ss.; Ez caps. 16 e 23) aparece a Aliança de Deus com seu povo, recorrendo sempre como riqueza de imagem ao símbolo matrimonial. Esses profetas falam em primeiro lugar do amor gratuito de Deus a seu povo, e dos adultérios com que este responde ao amor de Deus. Nos profetas se encontram ensinamentos esplêndidos para a vida e santificação dos esposos. Esta leitura profética obteve efeitos benéficos na ordem doutrinal do matrimônio, fazendo-o progredir para formas mais puras e mais em conformidade com o plano de Deus.

2.3 Período pós-exílico (desde 538 a.C.)

O período pós-exílico assinala uma recuperação moral e espiritual muito grandes, sendo bastante clara a tendência à monogamia, ao menos como ideal do matrimônio. O adultério era severamente castigado com a pena de morte para ambos cônjuges na legislação mosaica (Lev 20:10). Quanto ao repúdio unilateral à mulher por parte do varão (praticado por todos os povos em torno a Israel) tinha uma cláusula limitadamente permissiva no livro do Deuteronômio (24:1). As famílias judias representadas no livro de Tobias eram monogâmicas (Tob 1: 6,8). E os livros sapienciais exortam aos homens a buscar a alegria matrimonial na mulher única da juventude sem pretender outras (Prov 5,18). O Profeta Malaquias se levantou com uma mensagem clara contra o libelo de repúdio dizendo por parte de Deus: “Eu detesto o libelo de repúdio, diz Yahweh, Deus de Israel” (Mal 2: 14-16).

Ao dizer que a pedagogia divina do matrimônio no Antigo Testamento foi de uma educação progressiva, ainda não dissemos o principal. Jesus dirá que Moisés havia permitido o divórcio pela dureza de coração (Mt 19,8). São Paulo dirá que a antiga economia obedecia a certa permissão da paciência divina (Rom 1-3), como se se tratasse de menor idade espiritual da humanidade até chegar à maturidade e plenitude de graça em Cristo.

2.4 Na época neotestamentária

Os Evangelhos transferem a Cristo o título de Esposo atribuído pelos profetas a Yahweh no Antigo Testamento. A doutrina do Reino de Deus, núcleo dos Evangelhos sinóticos, se articula sobre o tema da alegoria matrimonial: “O Reino dos céus é semelhante, a um banquete de bodas que o Rei preparou para seu Filho” (Mt 22: 1-14).

Um dos pontos mais significativos da mensagem de Jesus Cristo é seu ensinamento relativo à indissolubilidade do matrimônio (Mc 10: 2-12; Lc 16:18; Mt 19; 1 Cor 7). Tanto o Evangelho de São Lucas como o de São Marcos, nos textos citados anteriormente, nos transmitem a doutrina pela que Cristo define como adultério o repúdio da mulher e sua posterior união com outra: “quem repudia a sua mulher e se casa com outra, comete adultério; e quem se casa com a repudiada comete também adultério”.

Qual é o conteúdo de Mc 10: 2-12, que é a perícope mais importante?:

  • que o libelo de repúdio obedecia a uma concessão precária pela dureza de coração;
  • “que no princípio não foi assim, mas que varão e mulher os fez Deus”;
  • que constituem entre si uma união mais íntima e inseparável que a que se tem com o pai e a mãe: “por isso deixará seu pai e sua mãe e serão os dois uma só carne”;
  • Cristo insiste nesta mesma união íntima como argumento de indissolubilidade: “assim, pois, já não são dois senão uma só carne”;
  • que essa união a realiza o mesmo Deus: “o que Deus uniu, o homem não o separe”;
  • que o homem não tem poder para separar o que Deus uniu;
  • o versículo 10 nos fala da surpresa dos discípulos que uma vez em casa, interrogam a Cristo; o qual demonstra ter compreendido o alcance e a novidade desta mensagem;
  • mas Jesus insiste: “quem repudie a sua mulher e se casa com outra, comete adultério contra aquela”;
  • “e se ela repudia a seu marido e se casa com outro, comete também adultério”.

Como explicar então o inciso que aparece nos relatos de São Mateus (19:9 e 5:32) que parecem uma exceção à indissolubilidade do matrimônio?

 “Mas eu vos digo que quem repudia a sua mulher — exceto o caso de fornicação — a expõe ao adultério, e o que se casa com a repudiada, comete adultério” (Mt 5:32).

“E eu digo que quem repudia a sua mulher (salvo caso de fornicação) e se casa com outra, adultera” (Mt 19:9).

Sem entrar no detalhe das mesmas, façamos algumas considerações gerais: A primeira tomada do contexto do próprio São Mateus, que é claramente em favor da indissolubilidade:

“Não haveis lido que o Criador, desde o princípio, os fez varão e mulher e que disse: por isso deixará o homem seu pai e sua mãe e serão os dois uma só carne? De maneira que já não são dois mas uma só carne. Pois bem, o que Deus uniu, não o separe o homem”. Dizem-lhe: então por que Moisés permitiu dar ata de divórcio e repudiá-la? Respondeu-lhes Jesus: por vossa dureza de coração os permitiu repudiar a vossas mulheres, mas no princípio não foi assim” (Mt 19:4-8).

Como se vê, este contexto e este ensinamento de São Mateus não é distinto do dos outros sinóticos, mas favorável à indissolubilidade e contrário ao divórcio.

A esta primeira consideração se acrescenta que os versículos 19:9 e 5:32, que poderiam parecer insinuar que há lugar a exceções no tema de indissolubilidade, seriam, segundo exegetas bem conhecidos como Bonsirven, Spadafora, Vaccari e Spicq, uma interpretação incorreta do original. [2]Realmente o texto original não diria nisi ob fornicationem (exceto em caso de adultério),  mas exceto no caso de concubinato. A palavra grega porneia, que aparece neste versículo, e que corresponde ao rabínico zenut (Matrimônio inválido, não verdadeiro, concubinato) indicaria o caso da união na que não existiu vínculo matrimonial.[3]

Expostas estes ensinamentos do Evangelho sobre o matrimônio, ainda temos de destacar dois aspectos mais, tomados de São Paulo: o primeiro se refere à consideração do matrimônio como dom e carisma de Deus (cfr. 1 Cor 7: 1-17). Por outro lado, o mesmo São Paulo situa todo o tema do matrimônio cristão na perspectiva do mistério da salvação: “Grande mistério (sacramento) é este, mas eu o digo em relação a Cristo e à Igreja” (cfr. Ef 5: 22-32).


NOTAS:

[1] Vaticano II, Constituição Gaudium et spes, 48.

[2] Cristo afirma a indissolubilidade do matrimônio. O inciso aparentemente exceptivo do versículo 32, que só consigna São Mateus, do que se deduz que responde à situação peculiar da Igreja mateana, composta de cristãos vindos do judaísmo e da gentilidade, se refere a Matrimônios nulos por haver sido contraídos em graus de parentesco proibidos pela lei (cf. Lev 18) e que os judeus haviam permitido a seus prosélitos. É o significado de porneia na literatura rabínica. Cf. também Mt 19:9.

[3] Cf. J. Bonsirven, Le divorce dans le Nouveau Testament, París, 1948, 422 ss.


Fonte: https://adelantelafe.com/Matrimônio-la-história-del-homem/